Depressão pós parto

20150526_231202

Esta é a primeira foto que eu concordei em tirar minha ao lado do meu filho. Este foi, também, o primeiro passeio que fiz com ele. Foram momentos muito difíceis para mim. A tranquilidade com a qual transcorreu a gravidez não foi, infelizmente, transferida para o pós parto. Conheci um lado meu totalmente nebuloso, conheci a tristeza profunda, a mais completa falta de vontade de viver. Não foram dias ou semanas difíceis – foram meses intermináveis. Meses em que eu olhava para meu filho e só conseguia sentir medo, dor, confusão, vontade de fugir. Não era cansaço típico.

Eu não queria visitas e não queria visitar ninguém. Gostaria de ter podido ficar em paz para, pouco a pouco, conhecer meu filho e me habituar às novidades. Não pude. As pessoas chegavam e olhavam para nós, eu sentia que mediam meu filho, procuravam algum defeito. Hoje, imagino que queriam somente  conhecer o bebê e me dar um abraço. Mas, na época, era muito dolorido cada vez que chegava alguém – ou cada vez que alguém avisava que ia chegar. Talvez o início dessa aflição tenha coincidido com a extrema dificuldade em amamentar meu filho. Eu tinha vergonha de todo esforço que tinha que fazer para que ele pegasse o meu peito – e do fracasso recorrente. Não queria que me perguntassem “Mas por que ele não pega o peito?”, mas tinha absoluta certeza de que perguntariam. E, muitas vezes, perguntavam.

Ainda não quero entrar em tudo o que envolveu minha saga em busca de amamentar meu filho, porque são muitos detalhes (e eu quero listar, inclusive, os produtos que testei e o que aconteceu, ao final. Spoiler: meu filho é lindo e saudável. E sabe que é amado demais por todos os seus cuidadores). Mas vou falar um pouco sobre essa dificuldade e o restante do quadro que se instalou em mim: recebemos alta da maternidade sem que meu filho mamasse no peito (ele nasceu de uma cesariana de urgência, prematuro, ficou 24h na UTI e depois foi para o apartamento, comigo). Voltamos, durante muitos dias, para um setor chamado “lactário” dentro da própria maternidade, para que meu filho “aprendesse” a mamar. Eram horas (sem exagero) angustiantes, onde eram feitas muitas manobras para que ele pegasse o peito que iniciavam com ele ainda dormindo (porém em jejum de mais de 3h) e terminavam com ele aos berros, minha roupa molhada de leite e meu peito dolorido. E, invariavelmente, com ele bebendo “complemento” no copinho, porque não tinha bebido 1 gota de leite materno sequer. Dia após dia, era isso. Em casa, tentava as mesmas manobras, ele gritava sempre, familiares me ajudavam (minhas tias, prima e meu marido também), e ele terminava, após horas, bebendo o “complemento” na seringa ou no copinho. Quando comprei as bombas de extração de leite materno, conseguia ordenhar uma pequena quantidade de leite materno e ele bebia no copinho ou na mamadeira. Imaginem receber visitas com essa rotina. Pois é, mas eu recebia, angustiada. O que seria o esperado? Eu dizer para as pessoas tudo o que estava passando para que, assim, elas se tocassem e não fossem em casa? Era muito, mas muito difícil pra mim. A vergonha que eu sentia e o meu fracasso estampado no choro incontrolável do meu filho me faziam querer me isolar cada vez mais. Era lidar com a insistência na amamentação e a frustração do fracasso. Agora, escrevendo isso aqui para vocês, eu consigo intuir que, sim, essa situação contribuiu muito para meu estado ruim.

Estava vivendo a realização de um sonho – ser mãe, mas ele vinha acompanhado de um pesadelo: não conseguia lidar com as dificuldades. Para mim, era tão confuso, tão triste, tão sufocante, que eu não tinha vontade de nada. Só de morrer, mas não tinha coragem de acabar com minha vida, então busquei ajuda profissional. 2 dos meus médicos receitaram medicamentos e eu busquei terapia. Foi uma excelente escolha, sinceramente. Nem tanto pelo medicamento (que não citarei o nome aqui), mas pela terapia. Foi lá que descobri muitas questões importantes sobre o puerpério, sobre mim, e é na terapia que tento, até hoje, me ressignificar.

Meu objetivo, aqui, certamente que é desabafar. Mas, além disso, é dizer que, se você está passando por algo parecido, existe saída. Se você se sente incapaz (inclusive, fisicamente), exausta, incompetente, busque ajuda. Eu sei que muitas recém mães não buscam essa ajuda e, sozinhas (muita vezes, em silêncio total), superam essa dificuldade. Cada caso é um caso, muita gente já tinha me falado muito mal sobre fazer terapia e eu já tinha ouvido que “dá perfeitamente pra sair dessa sozinha, é só ter força de vontade”. Mas eu não sei se conseguiria. Quando eu estava me sentindo no fundo do poço, à beira de um abismo, ouvir certas coisas, ver certas cenas, ser obrigada a conviver com certas pessoas era um esforço hercúleo pra mim. Ter que cumprir com obrigações sociais era um martírio. Não estou exagerando em nada, gente. A depressão fez isso comigo, eu me sentia um fantasma, uma morta viva. Olhava para meu filho e chorava. Chorava de medo, de angústia, de dor, de pena, de cansaço.

Hoje já faz mais de 1 ano que ele nasceu. Olhando pra trás, sinto muita culpa em perceber tudo o que eu perdi. Sei que ele ainda é muito pequeno, ainda é um bebê, mas sei também, que o tempo não volta. As marcas desse período tão difícil estão por toda parte: na aflição que sinto ao ver certas fotos dele, nas frustrações relacionadas à alimentação dele e em muitos outros lugares escondidos do meu coração.

Lidar com o que passou e deixou marcas não é fácil e não sei se, um dia, será. O que sei, hoje, é que ganhei um presente maravilhoso que é o meu filho e, junto com ele, ganhei de volta a minha família de origem, que se reaproximou de nós, assim que ele nasceu. Sei, também, que ganhei amizades, que filtrei e deixei para trás outras, que me roubavam a pouca paz que eu pudesse ter nos piores momentos. Esse, aliás, foi um processo dolorido, mas necessário e extremamente benéfico. Quando você tem uma doença como depressão, muita gente te julga: você passa a ser a antissocial, a grossa, a triste, aquela que não tem força de vontade, a invejosa, aquela que não sabe lidar com a felicidade dos outros. O que essas pessoas não entendem, é que você está doente e precisa de um tempo para se tratar, se redescobrir, um tempo para VOCÊ. Se, no meio de uma crise, um momento de extrema dificuldade, você ainda tiver que dar explicações detalhadas para alguém sobre o seu quadro, para que essa pessoa possa te acolher, sinto dizer mas, talvez seja o caso de se afastar dessa pessoa.

Com carinho,

Samia-Mãe

Anúncios

Sobre Samia Mãe

Samia, uma mãe com dúvidas e muita, mas muita vontade de acertar. Acredito que conversando sobre as dificuldades, elas se tornam menores e o caminho fica mais leve e divertido.
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s