Mãezinha

Mãezinha,  vamos lá: diga-me quais objetivos irreais você irá perseguir hoje?

Quais metas você,  conhecendo como ninguém a sua realidade,  vai estabelecer – e se frustrar ao final do dia?

Veja bem, mãezinha,  é importante procurar ser,  a cada dia,  melhor do que você foi no dia anterior. É importante não somente para o seu filho,  mas para você  (que,  aliás,  não deixou de existir depois que ele nasceu,  pare de tentar negar isso). É importante, no entanto,  ser realista e estabelecer suas metas de acordo com o que é viável PARA VOCÊ.

Especialistas em “criação de filhos” tem aos montes. Tanto os palpiteiros das redes sociais como aqueles diplomados Doutores em educação /desenvolvimento humano / etc e tal. São doutores,  com certeza eles sabem do que estão falando. Via de regra,  mãezinha, eles dizem que seu filho precisa de você,  exclusivamente de você. Dizem que somente o leite que sai do seu peito é suficiente. Então você começa a perseguir esse ideal – custe o que custar. Algumas vezes,  mãezinha,  você faz isso mecanicamente,  ou sem qualquer sensação de prazer ou,  ainda,  sem o mínimo sentimento de “plenitude”,  que esses entendedores garantem que você sentirá.

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Eles também costumam dizer que,  ainda que pareça contraditório, o pai da criança precisa se envolver com os cuidados desde cedo,  que o papel do pai é fundamental para o desenvolvimento de muitas estruturas cerebrais,  especialmente nos primeiros anos de vida. Você passa a perseguir o ideal de “pai perfeito” – ainda que o pai do seu filho não demonstre interesse,  ainda que,  inclusive,  vocês não morem mais juntos e você nem ache que ele é uma excelente influência para seu filho. Tudo bem,  tudo para as melhores condições de desenvolvimento para seu pequeno. O problema surge quando você acha que “fracassou”- ainda que isso não dependa de você,  ainda que dependa somente da vontade do pai (que parece não ter vontade alguma). Não depende de você mas você se culpa. Às vezes,  mãezinha,  você não escolheu de forma consciente um determinado cara pra ser o pai do seu filho,  apenas aconteceu. Falta de cuidado de ambos,  mas a culpa recai sobre você.

Mãezinha,  e o que dizer sobre sua vida profissional? Os doutores e os “doutores” são categóricos: a criança precisa estar no seio da família,  sendo cuidada pela mãe. Mas você precisa trabalhar fora. E agora,  mãezinha? Vai contratar uma babá? Vai deixar com a avó? Vai colocar numa creche? Não importa,  porque fazendo qualquer uma dessas coisas,  você estará “terceirizando” a criação do seu filho. Até um tempo atrás,  falava-se de um tal de “tempo de qualidade”, mas isso também já não existe mais,  agora o que vale é você passar o tempo todo com seu filho. Tempo de qualidade é coisa pra diminuir a culpa de pai/mãe preguiçoso e egoísta que põe filho no mundo e não quer “se consumir” com ele.

Mãezinha,  qual vai ser o aspecto que você vai escolher para se sentir culpada hoje? São tantos ideais-irreais-utópicos-fantasiosos que esses doutores escrevem que fica muito fácil “falhar”. Quantos desses doutores aplicaram tudo o que escreveram com seus próprios filhos, mãezinha? Se conseguiram,  é certo que não dormiam,  porque aqui no planeta Terra o dia de todo mundo tem 24 horas e,  considerando todas as pós graduações que eles tem,  toda sua produção cientifica,  todos os grupos de pesquisa que coordenam,  não sobra lá muito tempo para se dedicar aos filhos.

Ou será,  mãezinha,  que eles se dedicaram ao mais fácil dos ofícios : estudar a vida alheia e propor milhares de intervenções baseadas em colchas de retalhos de teóricos diferentes  (que não conheciam todas as facetas das realidades sobre as quais escreviam)?

Mãezinha, você é pós doutora na sua realidade. Você é quem sabe o que é possível fazer com o instrumental que tem. Cada escolha,  uma renúncia,  sempre. Claro que sim. Ter filhos significa mudar de vida. Mas a direção e a intensidade dessa mudança,  somente quem está ali,  roendo os ossos,  é que pode dizer.

Com carinho,

Samia-Mãe

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Sobre Samia Mãe

Samia, uma mãe com dúvidas e muita, mas muita vontade de acertar. Acredito que conversando sobre as dificuldades, elas se tornam menores e o caminho fica mais leve e divertido.
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